Nome: Satri.

 

Idade Aparente: Depende de quem olha.

 

Distrito: Nenhum e todos.

 

Estética/Subcultura: Transit Goth

 

POR QUE ME VISTO ASSIM? Sempre achei que há algo inevitavelmente imponente numa silhueta feminina bem construída. Uma jaqueta de corte preciso, uma micro saia, um salto extremo, formal e atrevido ao mesmo tempo.

 

Quote: “Faço o que tem que ser feito. O caos e a ordem são princípios plenos não estão sujeitos aos meus caprichos.”

 

UM DIA NA MINHA (NÃ0) VIDA:

Comecei o dia como sempre: sem ter certeza se ‘dia’ é a palavra certa. A névoa de New Tibene não obedece ao sol porque não há sol — há variações de densidade. Quando ela fica mais rala e prateada, as bonecas chamam de manhã. Quando fecha espessa e azulada, chamam de noite. Parei de corrigir isso há muito tempo. Os nomes que as pessoas dão às coisas dizem mais sobre elas do que sobre as coisas.

 

Saí pelos corredores entre o Frill-Sugar Kult e o Noir-Cyber Void. Esses espaços não têm dono e por isso são os únicos lugares em New Tibene onde eu me sinto, tecnicamente, em casa.

 

No limite do Frill-Sugar Kult, três Lolitas tomavam chá em volta de uma mesa insuportavelmente decorada enquanto folheavam uma revista anunciando novas tendências de bordado e rendas. Uma delas me viu e inclinou a cabeça com uma precisão que levou anos para aprender. Inclinei a minha de volta, sem a mesma etiqueta ensaiada.

 

Elas vieram de Disthereo com as memórias ainda quentes. A maioria chega assim — inteiras o suficiente para saber o que querem ser aqui. A travessia é difícil, mas limpa. Elas encontram um distrito, uma estética, um jeito de ocupar o espaço, e New Tibene as sustenta em troca. É uma negociação silenciosa que funciona enquanto as duas partes cumprem o acordo.

 

Continuei.

 

Passei pelo Exxxtreme-body Labz sem entrar. Há uma situação lá dentro que ainda não chegou no ponto em que minha presença vai servir para alguma coisa. Chegar antes da hora é tão inútil quanto chegar depois.

 

Terminei o percurso na zona proibida.

Haviam dois Vazios encostados numa parede que já não lembravam de qual distrito tinham feito parte. Emitiam um som insuportavelmente alto de estática ao mesmo tempO que foram perdendo as peças necessárias para formar voz. Eu lembro de quando chegaram. Designei cada uma para o seu distrito, acompanhei de perto por um tempo. Mas eu não sou a mãe de ninguém aqui. A parte que cabia a elas não foi cumprida, e New Tibene não espera. Chegaram de uma travessia que as partiu antes mesmo de terminarem de atravessar — sem nome, sem memória linear, com a identidade já em fragmentos na chegada. Poderiam ter reconstruído. Algumas conseguem. Mas a névoa parece ter decidido antes delas.

 

Fiquei a uma distância razoável. Uma delas virou o que restava do rosto na minha direção — provavelmente sentindo a cor dos crisântemos. Elas sempre sentem, quando não têm mais nenhuma cor própria. Uma lágrima tentou escorrer, mas era pesada demais. Terminou de esfarelar a resina do rosto antes de chegar ao queixo.

Não me aproximei.

Há um ponto no processo em que presença e intervenção deixam de ser a mesma coisa. Aprendi isso da forma mais longa possível — que é a única forma que New Tibene oferece.

Fiquei até a névoa fechar em volta delas. Depois voltei.

Há uma alma nova no limite leste que chegou há três horas e ainda não se moveu. Pode ser choque — que passa sozinho. Pode ser outra coisa.

Vou ver.”