Esta personagem é uma boneca OOAK (one of a kind)  em agradecimento à youtuber Ruby Stars, que seu sucesso seja tão longo quanto a vida de uma estrela. ♡

 

Nome: Ruby Catherine

Idade aparente: Não faço ideia. Pergunta pra Satri, ela adora guardar informações inconvenientes.

Distrito: Glam-Riot Vixenz

Títulos: A Fada Rosa / Princesa de Olhos Vermelhos

Por que me visto assim?

Meu pai dizia que uma roupa bonita deveria ser capaz de arruinar a entrada de qualquer outra pessoa depois da sua. Talvez ele não usasse exatamente essas palavras, mas foi isso que aprendi.

Alezander Marfim foi um dos estilistas mais prestigiados que já passaram por New Tibene. Durante muito tempo, parecia impossível andar pelo Glam-Riot sem encontrar alguma boneca tentando copiar um corte, uma silhueta ou uma ideia que tinha saído da cabeça dele. Alezander gostava de seda, alfaiataria feminina, saias lápis, estruturas exageradas e roupas que deixavam as bonecas bonitas de um jeito ligeiramente perigoso.

Ele também gostava de mim.

Não fui exatamente uma filha que ele teve. Fui uma filha que ele encontrou. Prefiro assim.

Quando Alezander partiu de New Tibene, deixou roupas, desenhos, histórias e uma saudade considerável espalhada pelo distrito. Eu fiquei. Acho que por isso ainda gosto de me vestir como uma das garotas dele. Seda, cintura marcada, saia lápis, casacos estruturados e alguma coisa estranha o suficiente para estragar qualquer tentativa de parecer comportada.

As asas na minha cabeça cumprem muito bem essa última função.

UM DIA NA MINHA (NÃO) VIDA

Acabei de voltar para New Tibene.

Minha última viagem foi longa até para os meus padrões. Passei por algumas colônias conhecidas e encontrei uma nova que ainda estou tentando entender. Era cheia de garotas vestidas como princesas, filhas de figuras aparentemente muito importantes, e todas estudavam numa escola onde existia uma divisão seríssima entre quem pretendia seguir o destino dos pais e quem havia decidido que não queria destino nenhum.

Perguntei por que adolescentes precisavam resolver uma questão existencial dessa magnitude antes de terminar a escola e ninguém soube me explicar.

Achei uma loucura.

Definitivamente uma das colônias mais esquisitas que já visitei, perdendo apenas para aquela onde meninas monstruosas estudam numa espécie de liceu. Lá conheci uma garota que tinha a pele verde, cabelos preto e branco, parafusos no pescoço e uma mão que se soltava durante as conversa e ninguém ao redor parecia considerar aquilo digno de comentário. Depois disso parei de tentar estabelecer parâmetros.

Passei também por uma cidade onde praticamente tudo era rosa e havia uma quantidade alarmante de mulheres chamadas Barbie. Essa eu adorei. Elas sabem se divertir. Também sabem dar festas e aparentemente possuem uma roupa específica para cada atividade que um ser pode exercer e uma postura bem feminista.
Lobas!
Voltei de lá com duas malas a mais, vários objetos de plástico extremamente bonitinhos e alguns presentes que uma Barbie de sobrenome “collector” me deu antes de partir.

Depois de tanto tempo fora, meu único plano era atravessar os portões de New Tibene sem chamar atenção, chegar em casa, tomar um banho demorado e dormir até meu corpo esquecer quantas fronteiras eu tinha atravessado.

Fui terrivelmente ingênua.

Eu mal havia passado pelos portões quando ouvi alguém gritar:

“A FADA ROSA VOLTOU!”

Pensei em fingir que não era comigo, mas é difícil fazer isso quando você tem uma quantidade indecente de cabelo rosa e preto e olhos inteiramente vermelhos.

Quando cheguei aqui, muito tempo atrás, Catherine era o único nome que eu tinha. Foram meus olhos que fizeram “Ruby” aparecer. São vermelhos por inteiro, da cor das pedras que Alezander guardava entre seus materiais, e alguém começou a me chamar assim. Depois outra pessoa repetiu. Alezander também. Quando percebi, Catherine tinha virado a parte do meu nome que só as bonecas mais antigas ainda lembravam de usar.

Talvez por isso eu não devesse ter me surpreendido quando uma fila começou a se formar.

Havia bonecas que eu conhecia há décadas, outras que eu jurava nunca ter visto e algumas tão novas que provavelmente só me conheciam pelas histórias. Antes que aquilo virasse um tumulto, Porscha apareceu e assumiu o controle da situação como se tivesse sido pessoalmente nomeada chefe de segurança da minha chegada.

“Uma fila, gente. Uma fila de verdade, vocês são burras por acaso? Isso aqui está parecendo liquidação de peruca numa terra de carecas”

“Obrigada, Porscha.”

“Não estou fazendo isso por você. Estou fazendo porque essas jecas estão amassando a minha roupa”

Essa era a Porscha que eu conhecia.

Nós somos amigas há muito tempo, embora tenha demorado um pouco para chegarmos nessa parte. Quando nos conhecemos, existia uma espécie de rivalidade silenciosa entre nós. Porscha sempre foi uma das bonecas mais bem vestidas de New Tibene e certamente dona de um dos guarda-roupas mais caros da cidade. Eu era filha de Alezander Marfim. Nenhuma das duas estava particularmente interessada em admitir que a outra sabia se vestir.

A situação melhorou quando percebemos que nossas discussões quase sempre terminavam com as duas criticando uma terceira roupa.

Além disso, Porscha adorava meu pai. Ela frequentava o ateliê, conhecia o trabalho dele muito antes de algumas bonecas daqui aprenderem a pronunciar Marfim e ainda fala dele daquele jeito muito específico de quem sente saudade, mas prefere transformar a saudade em fofoca.

Eu ainda estava observando Porscha comandar a fila quando ela finalmente perdeu a compostura.

“Tá. Agora eu.”

Ela simplesmente abandonou o posto, correu na minha direção e me agarrou.

Porscha continua sendo a única criatura que conheço capaz de dar um abraço apertado, dar pequenos pulinhos de felicidade e fazer tudo isso em cima de uma plataforma de quinze centímetros sem quebrar o tornozelo, o pescoço ou a dignidade.

“Meu Deus, eu estou tão feliz de te ver!”

“Você acabou de mandar todo mundo esperar.”

“Eu organizei a fila. Tenho privilégios administrativos.”

Ela apertou meu rosto entre as mãos e me examinou como se estivesse conferindo uma mercadoria que havia acabado de chegar.

“Cada dia que passa esse negócio de Ruby of the Stars faz mais sentido. Você vive em órbita! Parece astronauta. Você aparece, fica linda por cinco minutos e some de novo por anos.”

“Você sentiu minha falta.”

“Eu fiquei irritada com a sua ausência. É diferente.”

“Claro.”

Foi quando ouvi uma voz atrás dela.

“RUBY!”

Porscha fechou os olhos.

“Thary, tem uma fila.”

“Eu vi!”
Ela disse cruzando a fila com um vestido de pink seda esvoaçante da Donacélia Versate

“Então por que você está passando na frente dela?”

“Eu sou linda, eu faço oque eu quiser”

Thary atravessou a multidão antes que Porscha pudesse estabelecer alguma punição e praticamente se jogou em cima de mim. Abracei-a com tanta força que, por alguns segundos, esqueci que Thary nunca permanece com o mesmo corpo por tempo suficiente para abraçá-la de olhos fechados.

“AI!”

“Que foi?!”

“Tem alguma coisa me perfurando!”

“Oh!”

Ela me soltou imediatamente e virou de costas, toda contente, como se não tivesse acabado de me ferir. Das costas dela saíam vários spikes novos de cristal, compridos e translúcidos, encaixados ao corpo como uma formação mineral crescendo diretamente da coluna.

“São novos.”

“Eu percebi com a costela.”

“Não ficaram lindos?”

Ficaram. Esse era o problema de Thary. Era muito difícil ficar irritada com ela quando estava sorrindo daquele jeito.

Foi assim que passei a primeira hora do meu retorno abraçando gente.

Uma das meninas se agarrou em mim e disse que não acreditava que estava finalmente conhecendo a Princesa de Olhos Vermelhos. Outra me chamou de Fada Rosa. Uma terceira contou, muito séria, que algumas bonecas agora juravam pelo meu nome.

“Como assim, juram pelo meu nome?”

“Tipo: eu juro pela Ruby que não fui eu.”

“E funciona?”

“Não.”

Pelo menos isso estava esclarecido.

Foi ela também quem me contou que, quando alguém resolve ser especialmente generoso, dizem que a pessoa “acordou com o espírito de Ruby”.

Eu desapareço por alguns anos e volto canonizada.

Não sei exatamente quando ganhei essa reputação. Talvez seja porque nunca consigo voltar de mãos vazias. Viajo demais, conheço lugares demais e encontro coisas que me lembram das pessoas daqui. Posso passar anos longe, mas continuo lembrando que alguém coleciona determinada coisa, que outra boneca queria um acessório específico ou que uma amiga disse uma vez que adorava certa cor.

Então comecei a abrir as malas.

Distribuí presilhas, bolsas, joias, miniaturas, coisas de plástico da cidade das Barbies e um número irresponsável de presentes. Algumas eu lembrava exatamente para quem tinha comprado. Outras fui distribuindo conforme achava que combinavam.

“Sou basicamente um Papai Noel fashion”, concluí. “Só que de grife e muito mais bonita.”

Porscha disse que Papai Noel não desaparecia por anos sem avisar.

Inveja é uma doença terrível.

No meio de toda aquela gente, pensei no meu pai. Alezander teria gostado da cena, embora provavelmente tivesse criticado metade das roupas presentes antes de cumprimentar alguém. Ainda existem bonecas que me tratam com um carinho especial por causa dele. Algumas conheceram Alezander. Outras cresceram ouvindo falar do estilista que mudou a maneira como o Glam-Riot se vestia. Às vezes sinto que, quando uma delas me abraça, existe um segundo abraço escondido ali. Um para mim e outro para a memória dele.

Não me incomoda.

Gosto de pensar que alguma parte de Alezander ainda entra numa sala comigo.

Quando finalmente consegui escapar da recepção, fui encontrar Satri.

Ela estava me esperando e, antes mesmo que dissesse qualquer coisa, percebi que estava feliz em me ver. Satri não demonstra certas emoções como a maioria das bonecas, mas eu a conheço há tempo suficiente. Conheci versões dela que muitas das garotas daqui jamais conhecerão. Sei reconhecer felicidade quando aparece, mesmo quando ela tenta escondê-la atrás daquela cara de quem já sabia que eu chegaria antes de mim.

“Catherine.”

Só ela ainda consegue fazer meu primeiro nome soar como uma bronca e um abraço ao mesmo tempo.

“Eu também senti sua falta.”

“Eu não disse que senti a sua.”

“Mas sentiu.”

“Claro.”

Ficamos juntas por um bom tempo. Contei da escola das princesas, das garotas monstruosas, das Barbies, das colônias pelas quais passei e de algumas coisas que prefiro não escrever aqui. Satri ouviu tudo. Às vezes fazia perguntas. Às vezes apenas aquela expressão que significa que está decidindo se acredita em mim.

Quando finalmente cheguei em casa, já estava tarde. Minhas malas continuam fechadas no chão e eu deveria estar dormindo, mas comecei a olhar alguns mapas.

Já estou pensando em onde quero ir depois.

Acho que nunca vou conseguir ficar parada por muito tempo. Existem colônias demais, bonecas demais e coisas estranhas demais esperando para serem encontradas. Talvez seja por isso que gosto tanto de viajar.

Mas hoje foi bom atravessar aqueles portões.

Foi bom ouvir alguém gritar meu apelido no meio da rua. Foi bom ser esmagada por abraços, distribuir presentes, ouvir fofocas atrasadas e encontrar Satri exatamente onde eu esperava que ela estivesse.

Passei tanto tempo indo de um lugar para outro que às vezes esqueço uma coisa bastante simples.

Posso estar sempre em órbita.

Mas New Tibene é o lugar onde sabem quando eu voltei.

E acho que isso é o mais perto que uma estrela chega de ter uma casa.