Nome: Muse Aelynn
Idade Aparente: Pergunta besta…
Distrito: Frill-Sugar Kult
Subcultura: Classic, Sweet e Gothic Lolita
Quote: “Se dependesse de mim esse distrito seria perfeito. Infelizmente depende de todo mundo.”
Por que me visto assim? Uso os três estilos porque sou a prefeita de todos eles. Não vou escolher um lado numa guerra que não deveria existir. Se as meninas querem uma líder que as una, a líder se veste como a união. É simples. É lógico. É o tipo de coisa que eu teria que explicar menos se as pessoas pensassem mais.
Infelizmente, pensar mais não é o forte do Frill-Sugar Kult ultimamente.
UM DIA NA MINHA (NÃO) VIDA:
06h00: Acordar
06h15: Chá e revisão da agenda
07h00: Reunião com o conselho das Classic Lolitas
08h30: Mediação com representantes das Gothic Lolitas
10h00: Vistoria dos comércios
Esse era o plano.
Às 06h03, alguém jogou uma pedra na minha janela.
Desci de camisola, com o cabelo ainda armado da noite, e encontrei Celestine Plumé do lado de fora com uma expressão que só consigo descrever como apocalíptica.
“Prefeita Aelynn. Elas picharam a confeitaria da Taffy. Com tinta roxa. E desenharam um morcego obsceno no toldo e…”
“Para.”
Ela parou.
“Você está na minha lista?”
“Não, mas…”
“Então você deveria ter marcado um horário. Isso aqui não é uma daquelas biroscas que vocês diabéticas frequentam pedindo cupcakes e balinhas. Você não aparece e pede o que quer.”
“Mas a Taffy está…”
“Às oito. Meu escritório. Agora sai da frente da minha porta, que eu preciso me trocar.”
Fechei a porta.
“Que merda”, eu disse pra ninguém. “Que inferno de dia. A névoa mal nasceu e já tá mais quente que o caldeirão daquela bruxa sinistra da Satri.”
Cheguei na Douce Avenue às sete e quarenta. A Taffy estava do lado de fora e veio na minha direção como um bebê chorão procurando pela mãe. Imediatamente levantei a mão e parei a criatura antes que chegasse perto demais.
“Você não está na agenda. Afaste-se da sua prefeita.”
Me posicionei no meio.
“Bom dia”, uma delas disse com um sorriso amarelo, tentando me bajular.
“Não tem nada de bom hoje”, respondi, alta e agressiva. “Não quero saber como começou, não quero saber quem provocou quem e não me interessa a história completa, porque eu tenho uma agenda e nenhuma de vocês está nela. O toldo vai ser limpo hoje. Vocês três, no meu escritório, quatorze horas em ponto. Não quatorze e um. Em ponto.”
Uma delas abriu a boca.
“CALADA.”
Voltei pra casa sem ter tomado o meu chá, sem ter revisado a merda da minha agenda e com a certeza absoluta de que o dia ia continuar sendo uma verdadeira calcinha de renda que pinica a bunda.
Estava certa.
Na vistoria da Douce Avenue, fui parada quatro vezes por bonecas que não estavam na minha lista querendo me contar os pormenores do conflito. Não ouvi o início de nenhuma das histórias. Disse “marca um horário” e continuei andando. Na quinta vez, parei, virei e olhei pra fila que tinha se formado atrás de mim sem que eu percebesse.
“Alguma de vocês está na minha lista?”
Silêncio.
“Então saiam da minha frente, criaturas penosas.”
Ser prefeita é ser firme! Se elas não gostarem, podem escolher outra candidata na próxima eleição. (Não há eleições. Eu sou autoproclamada.)
Atravessei a rua na faixa de pedestres, como manda o certo. Três carros frearam bruscamente em cima de mim, quase causando um acidente, mas a faixa é preferencial e eu prefiro mais que todos!
As três Gothic Lolitas chegaram às quatorze e doze.
“Vocês estão atrasadas.”
“São só doze minutos…”
“Doze minutos que não estão na minha agenda. Sentem.”
Sentaram.
“Não me contem o que aconteceu, não me expliquem o motivo e não me deem contexto histórico, porque não tenho tempo. Muito menos vontade de ouvir suas vozes irritantes. Nada mais de pichações. Se eu vir mais um morcego em qualquer estabelecimento desse distrito, começo o processo de deportação. Vou botar vocês pra morar na rua mais podre do Exxxtreme-Modz Lab.”
“Entendido.”
“Saiam.”
Saíram.
Às dezessete horas, fechei a agenda, larguei ela na mesa com uma força considerável e decidi que precisava ter uma conversa com a única pessoa em New Tibene que talvez soubesse me dizer se existe alguma medida legal e não violenta que supra minha vontade de atear fogo no meu próprio distrito.
Fui procurar a Satri.
Encontrei ela nos corredores sem nome entre os distritos. De costas. Parada.
“Satri. Você não está na minha agenda, mas vou te dar quinze minutos. Tenho uma questão de jurisdição que…”
Dei a volta pra ficar na frente dela.
Parei.
O rosto era o dela. As roupas eram as dela. Mas havia algo errado que eu não conseguia nomear. As bordas dela tremiam levemente. Não o corpo, o contorno. Como uma imagem perdendo definição. Seus olhos estavam muito vermelhos, como se estivesse com alguma alergia grave. Enquanto eu olhava, o rosto escorregou por uma fração de segundo, como se manter aquela aparência estivesse custando algo que estava acabando.
“Satri?”
O som que saiu da boca dela tentava ser a voz da Satri, mas era grave, quase masculino, e parecia terrivelmente agoniado.
Eu, que nunca pedi licença pra ninguém. Eu, que encarei reuniões de três horas com Classic Lolitas furiosas sem perder a compostura.
Corri.
Corri pelos corredores sem nome até o limite do meu distrito e só parei quando a névoa do Frill-Sugar Kult fechou ao meu redor.
Amanhã tenho reunião com o conselho às sete em ponto. Mas esta noite vou trancar a porta e não vou abrir pra ninguém que não esteja na minha lista.
Nem pra Satri.
Especialmente não pra Satri.