Nome: Penélope Umbra

Idade Aparente: 24 anos

Distrito: Creepy-Ghost Dollz

Estética/Subcultura: Void Editorial / Dark Couture.

Quote: “A lua me viu uma vez. Desde então, ela evita piscar.”

POR QUE ME VISTO ASSIM? Qualquer boneca consegue aparecer com renda rasgada, sombra preta e uma carinha de tragédia barata. Isso comove iniciantes, Diacorinnas impressionáveis e uma ou outra gótica que ainda acha que sofrer em público substitui personalidade. Eu tenho outro padrão. 

Não uso símbolos óbvios. Não preciso de caveiras, costelas pintadas ou truques de feira. Meu rosto já faz bonecas desviarem o olhar. Meus olhos fazem o resto. Quando a luz bate neles, aquele branco aceso parece menos um reflexo e mais um aviso. É o tipo de detalhe que dispensa decoração temática.

Prefiro preto sobre preto, transparências doentes, brilho baixo, correntes finas, renda escura, barras irregulares e camadas que parecem ter absorvido a noite em vez de apenas imitá-la. A roupa precisa se mover como fumaça pesada.

UM DIA NA MINHA (NÃO) VIDA:

Ontem cheguei da festa da Thary com uma sensação muito ruim. Ela me convidou pra uma de suas festas exóticas com bebidas coloridas, dança e esoterismo, eu não compareci pelo desejo de ver suas visões estéticas excêntricas e muito menos pra me divertir… ultimamente estou sendo assombrada 

Pedi pra que ela lesse minha sorte. Vi seus olhos de fundo negro e pupilas azul neon esconderem uma expressão de terror absoluto. Ela me disse que tempos sombrios estavam se aproximando, que Afeardite tinha se apresentado em projeção astral pra ela e a precedeu do que chamou de “A Grande Tribulação”. Ela soltou a fumaça do incenso que fuma e eu posso jurar que vi caveiras e símbolos de morte se formarem no ar.

Eu vivo no distrito das garotas que assustam seus próprios medos. Sou uma celebridade aqui. Tenho os olhos mais profundos e luminosos, a pele mais escura e a aura mais sombria de todos os distritos. “Umbra” foi uma honraria concedida pelas bonecas do meu distrito àquelas que não apenas habitam o medo mas o produzem. É a distinção entre uma boneca que assusta e uma boneca que é a própria essência do medo. Só existem três Umbras registradas na história do Creepy-Ghost Dollz.

Eu sou uma delas.

E eu estou com medo.

Quando Thary largou minhas mãos uma de suas Diacorinnas (servas)  sussurrou algo em seu ouvido e ela se despediu de mim. Agradeci o convite, cruzei as cortinas do templo em direção à saída e foi quando vi de soslaio ela e a Porscha Axioméa numa espécie de discussão. Thary parecia acoada, como se precisasse se defender de algo, enquanto Porscha gesticulava furiosa.

“Você ficou louca! Você é a quimera mais burra de toda New Tibene. Você tem noção de que nem aquelas adictas do Cyber Void fariam algo tão estúpido como você está fazendo?”

Ela dizia com uma raiva contida que forçava Thary a ter juízo, ignorando completamente os gestos da amiga pra que falasse mais baixo.

Porscha percebeu minha presença. Em fração de segundo o tom mudou. Thary, que parecia intimidada, teve uma rápida mudança de expressão e postura. As duas se entreolharam por um segundo e num sorriso quase convincente Thary disse:

“Videl, acompanhe a Penélope até a saída. Ela deve ter se perdido nesse labirinto que é o templo.”

As cortinas fecharam. Videl me segurou com delicadeza pelas mãos e me conduziu até a saída. Ela tremia com um certo medo de mim.

“Obrigada Videl. Eu aposto que Afeardite iria achar adorável a sua gentileza em me levar até a porta.” Sorri mostrando meus dentes afiados e projetei a luz dos meus olhos contra os dela, propositalmente.

Ela ficou pálida… Satisfatório.

A estação do metrô que liga o Exxxtreme-body Labz ao Creepy-Ghost Dollz estava completamente vazia. Não é incomum nesse horário. Mas vazia tem graus, e essa noite a estação estava vazia de um jeito suavemente desconfortável. Como se eu tivesse sido teleportada para Silent Hell ou entrado por acidente numa sala do beckrooms.

Sentei no banco de espera e fiquei olhando pro trilho.

Foi quando vi.

No fundo da plataforma, nos trilhos onde a luz não chega direito, havia um amontoado de Vazias de mãos dadas formando uma corrente. Não duas, nem três. Muitas. Elas estavam nuas e cantavam algo que eu nunca ouvi antes, uma música confusa e cacofônica como se estivesse sendo executada de trás pra frente. A estática delas era alta, mais alta do que qualquer coisa que eu já tinha sentido fora da Área Proibida, e uma interferência ensurdecedora massacrava meus ouvidos.

Uma delas virou o que restava do rosto na minha direção e apontou para mim com os olhos arregalados.

A sensação de ser olhada foi tão física que me levantei antes de perceber que estava me levantando. Meu corpo não hesitou. Meu medo veio como uma faísca de raiva por estar sendo assustada.

O metrô chegou num piscar de olhos numa velocidade que se chocou violentamente com seus corpos destruídos num flash rápido. Entrei sem olhar pra trás.

Desci no meu distrito com um peso crescente que se concentrava como um nó no elástico da garganta.

Foi quando vi a Satri.

Parada no corredor que dá acesso ao meu apartamento, de costas. Sua respiração era pesada, quase um sufocamento, como se lutasse para puxar o ar.

“Satri?” Tentei encará-la de frente.

Ela virou devagar demais, ainda puxando o ar com dificuldade.

Quando encostei as mãos em seus ombros, o corvo do zelador soltou um grunhido estridente. O farfalhar das asas era alto como uma sirene.

Dei um salto para trás tirando as mãos rapidamente. Quando olhei de novo não havia mais ninguém lá.

Entrei no elevador. Não olhei pro corredor enquanto a porta fechava. Menti pra mim mesma que não tinha olhado porque não queria. A verdade é que não tive coragem.

Deitei com a roupa da festa sem me trocar e fechei os olhos sem querer dormir.

Dormi do mesmo jeito.

Era a Área Proibida, ou pelo menos o que imagino que seja, porque nunca fui fundo o suficiente pra saber de verdade. O chão estava coberto de fragmentos, peças velhas, restos de coisas que um dia foram alguém.

No meio de tudo havia uma Vazia. Usava trapos do que suas roupas um dia foram. Havia um cordão quebrado no pescoço com um pingente escrito “Neve”. Acho que era seu nome.

Ela ainda tinha forma e contorno. Havia algo se aproximando pela névoa. Não conseguia ver o que era. Só conseguia ver o espaço que ocupava, a forma como a névoa recuava na frente dele. A presença não era assustadora. Era opressiva.

Sentia uma angústia crescente se instalando no meu âmago com a certeza absoluta de que aquela forma não iria apenas machucar a Vazia chamada Neve. Iria roubar algo tão íntimo que nem mesmo a névoa em toda a sua maldade teve coragem de tocar.

Neve não correu. Acho que não conseguia mais.

Meus olhos lacrimejaram diante da impotência.

O que veio depois eu não vou descrever. Não porque não lembro. Porque algumas coisas, quando você coloca em palavras, ficam mais reais do que deveriam ser.

O cenário mudou antes do fim.

De repente não era mais a Área Proibida. Era um quarto. Rosa, cheio de flores, com aquele incenso específico que reconheci imediatamente.

O quarto da Thary.

Havia outra Vazia de roupas rosas. E então os gritos começaram.

Não eram gritos normais. Eram os gritos de Neve chegando de outro lugar, transmitidos através daquela garganta como se fosse uma antena. Ondas, frequências se sobrepondo, terror puro em estática. Gritos que uma Vazia não deveria conseguir dar. Que não pertenciam a quem estava gritando mas que usavam aquele corpo como canal pra chegar até algum lugar.

Acordei sentada na cama.

O silêncio do meu apartamento era absolutamente ensurdecedor.

Fiquei parada por um tempo que não sei medir, tentando separar o que era pesadelo do que era real. Um exercício que nunca precisei fazer antes dessa semana.

Pensei na premonição de Thary. Nos seus olhos escondendo terror enquanto me falava de tempos sombrios. Na fumaça do incenso formando caveiras. Na briga com a Porscha. Nas Vazias em corrente na estação. Na Satri sufocando no corredor vazio.

Não sei o que isso significa ainda.

Mas sei que amanhã vou precisar descobrir. Se algo assusta uma Umbra, significa que algo realmente terrível se aproxima.